Abril I A Senhora Macieira Seis Meses Depois
Abril
A Senhora Macieira - Seis Meses Depois
Seis meses depois voltei a este Lugar de Paz, desta vez para anfitriar um encontro.
O meu choque inicial ao rever a Sra Macieira, amputada, despida, de noite, inicialmente congelou-me o peito.
Abri a porta e fui ter com ela, e então pude sentir a sua presença, o seu poder, a sua vitalidade e irreverência. Mais leve, sem os seus enormes braços abertos, torneados e folheados, sem os seus frutos viçosos, mas cheia de vida a despontar, flores perfumadas e o mesmo vínculo com o chão e o coração da Terra.
Conheci-a encarnando Deméter, voltei com ela Perséfone, numa lua nova muito simbólica.
A alegria do reencontro é subtil e recíproca e a paz deste lugar permanece, atravessa, preenche, para além de um Inverno devastador, que trouxe a lagoa até aqui perto.
Se na primeira vez, a Sra Macieira inspirou o início de um lindo Jardim, desta vez foi espelho para cada uma de nós.
Não vemos as coisas como elas são. Vemos as coisas como somos, de acordo com os ciclos que estamos a viver. E se há coisa de que a Senhora Macieira nos fala é de ciclos. De morte e renascimento. De inícios e de fins, de espirais ascendentes e descendentes. De se ser flor, fruto e semente, ciclicamente. E de para lá de tudo o que acontece, escolhermos dizer sim à Vida. Com toda a reverência e entrega.
E porque somos invadidas pela sensação inicial de susto e de dor com o contraste? Com a comparação? Da Árvore que era frondosa e agora está quase nua?
Quão entranhada está em nós, esta mania de ser sempre bela e frondosa, de produzir frutos continuamente, de cuidar mais do que ser cuidada?
Que ferida antiga e coletiva é esta que nos atravessa a todas (e a todos)?
Quem cuida da Sra Macieira, explicou que ela estava tão pesada, que corria o risco de rachar ao meio.
Crescer continuamente sob a mesma estrutura pode levar à fragmentação.
Produzir frutos continuamente, pode levar à morte.
É preciso aliviar o peso, despir roupas e pele velhas, para continuar a viver.
Arriscar iniciar novamente. Voltar a ser semente.
E confiar na sabedoria maior da Vida.
Ou será que quem podou a Sra Macieira, não lhe prestou a devida atenção e cortou demais?
Cada uma de nós vai sempre ver fora, o que vive dentro.
Não importa tanto a resposta certa. Confabular uma metáfora significativa.
Importa sim, oferecer a nossa escuta, presença, cuidado. E deixarmo-nos ser vistas, acolhidas, cuidadas.
Em coletivo. Em pertença. Em reciprocidade.
Tão pouco é relevante saber ao certo qual é o caminho. Escavar até ver todas as raízes. A busca da certeza é perigosa. Faz-nos perder a Vida, que é mistério.
A mim parece-me que é muito mais sobre viver e saborear a Vida. E cuidar dela, pois ela cuida de nós, incondicionalmente.
Voltamos para casa mais leves mas preenchidas, de paz e do poder da incerteza.
Não importa como o mundo vai acordar amanhã. Encontraremos sempre uma forma de ser vida. De amar e ser amadas.
Tal como Somos. E tal como a Sra Macieira.
A minha reverência à Vida e a este Lugar por tanto que já me/nos ofereceu.
Susana Cravo