Clube dos Embaixadores Cabo Verde I Testemunhos
Clube dos Embaixadores Cabo Verde
em Parceria com a Quercus Cabo Verde
O primeiro ciclo anual para Embaixadores em Cabo Verde, teve início em Junho de 2025.
Tem um Programa dirigido a 12 Ativistas locais Jovens e Adultos, com experiência e recomendados pelos Parceiros locais.
Percorremos um itinerário pedagógico inspirado na Teoria U (Otto Scharmer) e numa abordagem de Coaching sistémico, com sessões de coaching individual e grupal.
Contamos com a parceria da Universidade de Cabo Verde, a Direção Nacional da Educação, a Direção Nacional do Ambiente. o Município da Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha) e a Escola Secundária Abílio Duarte.
As sessões são privadas e estão disponíveis apenas para os participantes na app kutsaca.
Testemunhos
(dados perto do meio da jornada)
Dimas Silva
Aluno de Ciências Biológicas - vertente ambiente, recomendado pela UNICV
"O meu nome é Dimas Silva, sou estudante do curso de Ciências Biológicas – vertente Ambiente, na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).
A minha formação tem-me aproximado cada vez mais das questões ambientais, mas também de práticas que fortalecem a convivência, a responsabilidade social e a construção de um olhar crítico sobre o território e sobre as relações humanas.
A minha participação no Projeto Clube dos Embaixadores, desenvolvido pela Kutsaca e orientado pela Susana Cravo, tem sido uma experiência profundamente transformadora, não apenas no campo ambiental, mas também no pessoal e no académico.
As sessões têm despertado diversas reflexões que estão a impactar diretamente a forma como me relaciono com as pessoas e com as famílias.
Um dos pontos que mais tem fortalecido o meu crescimento é a prática de ouvir verdadeiramente. Percebi que, antes, eu até escutava, mas já preparava uma resposta enquanto o outro falava.
Hoje, compreendo que ouvir não é necessariamente responder, e que muitas vezes o mais importante é acolher, compreender e interpretar o que a outra pessoa realmente quer transmitir. Este processo tem me ajudado a conectar-me melhor com os compromissos que assumo com o coletivo. Sempre tive conhecimentos relevantes, mas nem sempre sabia como transmiti-los de forma clara e eficaz.
Agora, com as técnicas de comunicação que estamos a desenvolver, consigo estruturar as minhas ideias com lógica, apresentar a minha visão sem impôr nada a ninguém e encontrar pontos de entendimento que sejam claros e úteis para todos.
Como estudante, estes avanços têm sido essenciais. Lido diariamente com professores e colegas, e noto mudanças significativas na minha comunicação, na forma como colaboramos e até no ambiente académico em que estou inserido. No que diz respeito às questões ambientais, estas sessões têm funcionado como um verdadeiro estimulador.
Elas ajudam-nos a olhar para o nosso entorno com mais consciência, a perceber que nada é isolado e que tudo funciona em sinergia. Com isso, cresce também o sentido de responsabilidade nas inter-relações que estabelecemos.
Aprendi que, além de agir com responsabilidade, precisamos desenvolver um olhar crítico e cuidadoso para identificar os problemas ambientais que enfrentamos, e que as estratégias adotadas devem ser seguras, eficientes e realistas, sem romantizar os desafios.
Participar neste projeto tem sido, portanto, uma oportunidade de crescimento integral: como pessoa, como estudante e como futuro profissional comprometido com o ambiente e com a comunidade."
Wilson Silva
Ativista local recomendado pelo Município da Ribeira Grande de Santiago
Quando entrei no Clube dos Embaixadores, eu estava num daqueles momentos em que a gente sente que quer crescer, quando recebi o convite para ser membro deste clube não tive dúvidas e nem receio em aceitar, no nosso primeiro encontro que tivemos a Susana mostrou-me que eu não me iria arrepender de ter feito a escolha de participar neste clube.
Esta formação acabou por ser um espelho desconfortável. Fez-me perceber que muitas das limitações que eu atribuía ao “contexto” eram, na verdade, minhas: falta de consistência, medo de errar, dificuldade em comunicar com clareza e a tendência de esperar aprovação antes de agir. Doeu admitir isso, mas foi libertador.
O que mais me marcou no Clube dos Embaixadores foi sentir que eu não estava sozinho no processo. Ao ouvir outros participantes, percebi que todos carregamos dúvidas, inseguranças e histórias. E, mesmo assim, todos escolhemos levantar a mão para crescer. Foi isso que me empurrou: ver que ninguém ali era “perfeito”, mas todos estavam comprometidos.
Hoje sinto-me mais consciente do meu papel e do impacto que posso ter. Já não espero sentir-me “pronto” para liderar — eu ajo, aprendo e ajusto. Passei a ver o ambiente e tudo que me rodeia com outros olhos, passei a observar muito mais e também a tentar entender-me a mim mesmo enquanto ser humano.
O Clube dos Embaixadores está a ajudar-me a ganhar coragem para encarar as minhas fraquezas e transformá-las em crescimento.
E, por mais pessoal que isto seja, é exatamente essa coragem que eu quero continuar a multiplicar nos outros. Só tenho a agradecer por ter sido escolhido.
Irina Fonseca
Professora de História e Geografia de Cabo Verde no Ensino Básico, Recomendada pelo Parceiro Quercus Cabo Verde
A Metamorfose do Clube dos Embaixadores
"Quando fui convidada para integrar o Clube de Embaixadores, não fazia ideia do que iria acontecer.
A minha primeira reação foi de surpresa e até algum receio: - “Como é que vou fazer isto?”: pensava eu. Numa conversa com a Susana, cheguei a dizer em tom de brincadeira, mas também de verdade: “Vou transformar-me numa ativista que sai às ruas e começa a trabalhar arduamente na campanha de limpeza, sensibilizando os alunos através de histórias”, algo que, de certa forma, já fazia habitualmente na ilha da Boa Vista, onde sou muitas vezes convidada para ações de sensibilização ambiental.
No entanto, tudo mudou, quando a Susana nos apresentou a Teoria U, de Otto Scharmer. Fiquei completamente pasmada. Nesse momento, pensei: “Meu Deus, tenho feito tudo da forma errada!” Mas, em vez de me sentir culpada, uma frase dita pela Susana ficou gravada na minha mente e transformou a minha forma de olhar para o processo: “Não estamos aqui para acusar ou dizer que está tudo mal. Somos todos responsáveis, mas o importante é olhar para o que podemos transformar.”
A Teoria U fez-me compreender que o nosso papel como Embaixadores vai muito além da ação imediata. Não se trata apenas de aprender sobre o futuro, mas de aprender com o futuro, à medida que ele emerge, através de uma escuta profunda, atenta e de uma presença verdadeiramente consciente. Percebi que a mudança sustentável começa dentro de nós: na forma como ouvimos, como observamos, como nos abrimos ao novo.
Outro ponto marcante deste processo foi a conversa com a Susana, que nos conduziu a um exercício de escuta profunda, não apenas do que está à nossa volta, mas sobretudo de nós próprios. Ela convidou-nos a refletir sobre uma pergunta simples na forma, mas extremamente complexa no significado: “Quem sou eu?” Para mim, este momento foi particularmente desafiante.
Quando alguém me pergunta quem sou, a resposta que surge de imediato é a mais óbvia: “Sou Irina Selma Fonseca Lopes, filha da Maria e do Manuel”, acompanhada de outras informações sobre o que faço, de onde venho ou qual é a minha história familiar.
Mas, à medida que a conversa avançava, percebi que aquela pergunta ía muito além das etiquetas sociais ou das identidades que aprendemos a repetir. A Susana levou-nos a perceber que “Quem sou eu?” não se refere apenas ao nome, à profissão ou às origens, mas a algo muito mais profundo: ao nosso propósito, ao que nos move, ao que sentimos quando olhamos para dentro sem máscaras nem expectativas.
E foi aí que senti a dificuldade. Porque, apesar de eu conseguir explicar muitas coisas sobre mim, aquilo que faço, aquilo que gosto, aquilo que acredito, a resposta mais verdadeira àquela pergunta ainda não a sei formular completamente. E talvez essa seja exatamente a lição: reconhecer que estamos em constante descoberta, que o nosso “eu” não é estático, mas um caminho em movimento. A escuta profunda ensinou-me que não precisamos ter todas as respostas, mas sim a abertura para continuar a procurar.
A observação da árvore (...) levou-me a uma reflexão profunda sobre a forma como cada pessoa projeta nela os seus próprios significados. Durante a atividade, muitos colegas olharam para a mesma árvore e atribuíram-lhe características femininas. Para eles, a árvore representava proteção, acolhimento, cuidado e fertilidade, elementos frequentemente associados ao feminino. A forma como os ramos se abriam, quase como braços que abraçam, e a sombra generosa que oferecia, os frutos, foram interpretadas como gestos de maternidade e nutrição.
Contudo, a minha perceção foi diferente. Eu vi a árvore como masculina, e esta leitura surgiu de uma ligação muito pessoal com a força que ela transmitia. Para mim, o tronco firme e robusto representava estabilidade, resistência e presença, qualidades que associo ao masculino. A forma vertical e imponente da árvore dava-me a sensação de proteção estrutural, como se fosse uma figura que sustenta e segura, permanecendo de pé independentemente das tempestades.
Percebi então que a árvore não mudou, quem muda somos nós, com as nossas vivências, memórias e formas de interpretar o mundo. A mesma árvore pode ser materna ou paterna, suave ou forte, feminina ou masculina. O que ela reflete é, na verdade, aquilo que carregamos dentro de nós. E essa descoberta é, talvez, a parte mais fascinante do processo: compreender que a natureza funciona como um espelho dos nossos próprios sentidos e caminhos interiores.
A atividade "X", fez-me refletir sobre como interpretamos as coisas com base no que nos é ensinado. Esta experiência mostrou-me que a minha perceção é moldada pelas minhas experiências.
Outra abordagem muito enriquecedora foi a experiência de vivermos um dia de coaching. Nesse momento, compreendi algo essencial: o papel de um Coach não é dizer à pessoa qual decisão deve tomar, nem indicar o caminho exato que ela deve seguir. Pelo contrário, o coaching baseia-se numa orientação subtil e consciente, que ajuda cada indivíduo a chegar às suas próprias respostas.
O coach não entrega soluções prontas, abre espaço para que a pessoa descubra, por si mesma, aquilo que realmente quer e aquilo que faz sentido para o seu percurso. Através de perguntas bem colocadas, escuta atenta e presença genuína, o Coach permite que o outro clarifique ideias, organize pensamentos e reconheça sentimentos que, muitas vezes, estavam escondidos ou dispersos.
Percebi, então, que a verdadeira força do coaching está na capacidade de ajudar a revelar o potencial interior, e não em impôr decisões.
É um processo que valoriza a autonomia, a consciência e o autoconhecimento. Senti na pele como este método nos conduz a um lugar mais profundo dentro de nós, aquele onde as respostas verdadeiramente importantes se encontram.
Por fim, o vídeo sobre a água, trouxe uma mensagem muito poderosa e simbólica. Ele mostrou-nos que, tal como acontece na natureza, também na nossa vida é necessário completar o ciclo para que tudo volte ao equilíbrio. No vídeo, percebemos que a água só cumpre a sua função quando todas as etapas do ciclo acontecem, a evaporação, condensação, precipitação e infiltração.
Se uma destas partes falhar, o sistema deixa de funcionar de forma harmoniosa. Esta ideia fez-me entender que, na nossa própria jornada pessoal e no trabalho enquanto Embaixadores, também precisamos de respeitar os nossos ciclos internos: momentos de ação e de pausa, de reflexão e de renovação.
Tal como a água não pode permanecer sempre no mesmo estado, nós também não podemos avançar sem parar para observar, sentir e reorganizar. O vídeo ensinou-nos que o equilíbrio só acontece quando permitimos que cada fase tenha o seu lugar, sem precipitação, sem cortes, sem interrupções. Quando o ciclo é completo, tudo flui naturalmente na natureza e em nós.
O caminho ainda é longo nesta descida do U (...). Esta etapa representa o processo de largar, desapegar e olhar para dentro com honestidade.
Não é uma descida fácil, exige coragem para abandonar velhos padrões, silenciar o ruído externo e ouvir o que verdadeiramente importa. (...) Somos convidados a suspender julgamentos, a observar com mente aberta e a conectar-nos a um nível mais profundo do nosso ser.
É um percurso que requer tempo, paciência e entrega, porque só quando chegamos ao fundo do U, é que conseguimos aceder à clareza, à inspiração e à visão renovada.
A partir daí, inicía-se a subida, onde o novo começa a emergir. Mas, por agora, reconheço que estou ainda a descer, a aprender, a escutar, a transformar e isso já é, por si só, um passo importante no meu processo de evolução pessoal e como Embaixadora.
Quero expressar a minha profunda gratidão à Susana, por toda a experiência enriquecedora que nos está a proporcionar. A sua orientação, paciência e capacidade de nos levar a refletir de forma mais profunda, foram fundamentais para este processo de transformação interior.
Agradeço também à Denise pelo convite e pela oportunidade de fazer parte deste percurso. Foi graças à confiança dela que pude viver tudo isto, aprender, questionar-me e crescer.
Sinto-me verdadeiramente honrada por ter sido incluída neste caminho que, apesar de desafiante, tem sido inspirador e cheio de significado."