Fevereiro I A Técnica como Gaslighting

Fevereiro I A Técnica como Gaslighting


 

“Não basta saber respirar para sair do patriarcado.
Não basta fazer banho gelado para sair da opressão estrutural.
Não basta meditar, fazer journalling ou yôga para sair de condições que foram projetadas para te desregular.

Isso não quer dizer que, ferramentas de regulação do sistema nervoso não sejam valiosas. Elas são.
Eu uso-as. Eu ensino-as.
Eu acredito na capacidade do corpo de se auto-regular, de encontrar chão, de retornar a si mesmo.
 

Mas quando ferramentas de regulação são oferecidas como a solução para uma ativação crónica sem nomear a causa dessa ativação, elas se tornam uma forma de gaslighting.
Elas localizam o problema no teu corpo, e não nas condições às quais o teu corpo está a responder.

A mensagem passa a ser:
Se ainda estás ansiosa, é porque não tentaste o suficiente.
Se ainda estás ativada, é porque não encontraste a técnica certa.
Se ainda estás a sofrer, a falha é tua.
 

Mas e se o teu sistema nervoso não estiver quebrado?
E se ele estiver correto?

E se a tua ativação crónica for uma resposta adequada para (sobre)viver num mundo onde o teu corpo nunca esteve totalmente seguro?
Onde os teus direitos podem ser retirados por lei?
Onde o teu valor foi atrelado à tua aparência, ao teu “sucesso”, à sua obediência, à tua capacidade de servir?
Onde a violência contra o Feminino é endémica e normalizada?
Onde a carga mental é invisível, não remunerada e interminável?
 

Tu não estás desregulada porque estás a fazer algo errado.
Tu estás desregulada porque o teu corpo está a ler o ambiente corretamente.

Esse é o problema do trabalho com o sistema nervoso que não inclui análise política, cultural, ecológica, social, económica.
Ele patologiza a percepção/sensibilidade apurada.
Ele manda-te acalmar, quando na verdade, acalmar é uma forma de negação.
Ele treina-te a regulares-te para tolerar condições que não deveriam ser toleradas.
 

E se a regulação nem sempre for o objetivo?
E se, às vezes, o objetivo for testemunhar?

E se a ativação do teu corpo não for um problema a ser resolvido, mas uma verdade a ser testemunhada?
E se o tremor, o coração acelerado, a incapacidade de te aquietares, forem o teu corpo a dizer:
isto não está certo. Isto nunca esteve certo.

E eu recuso-me a fingir que está.
 

Há um motivo pelo qual, povos oprimidos sempre usaram o corpo como um local de protesto.
O corpo que se recusa a ficar calmo, é um corpo que se recusa a obedecer.
O corpo que permanece ativado, é um corpo que está a dizer a verdade sobre aquilo a que sobreviveu.

Não estou a dizer para não te auto-regulares.
Estou a dizer para te regulares com consciência.

Toma atenção para o que te estás a regular.
Observa se a tua prática de regulação, te está a ajudar a aparecer de forma mais plena na tua vida,
ou se te está a ajudar a tolerar condições que seria melhor mudar ou abandonar.
 

Existe uma diferença entre acalmar o sistema nervoso para estar presente
e acalmar o sistema nervoso para continuar sendo explorada/reprimida/negligenciada.

Uma é cura, cuidado, integração.
A outra é dissociação sofisticada.

O teu corpo tem uma enorme sabedoria.
Ele sabe o que é seguro e o que não é.
Ele sabe o que é sustentável e o que é drenante.
Ele sabe quando estás no relacionamento errado, no trabalho errado, no ambiente errado.
 

A pergunta não é:
Como faço para o meu corpo parar de reagir?

A pergunta é:
O que o meu corpo me está a tentar dizer, que eu não tenho querido ouvir?

 

Às vezes, a coisa mais radical que podes fazer, é não te acalmares.
Às vezes, o mais radical é deixares o corpo falar.
Deixá-lo ser testemunha.
Recusares-te a regulares-te para estar em conformidade com condições que te estão a matar lentamente.

Embora não baste saber respirar para sair do patriarcado,
tu podes escutar o corpo, que vem registando o impacto dele o tempo todo.”
 

Texto adaptado e tradução livre de

Ailey Jolie

Psicoterapeuta

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