Novembro I A Senhora Macieira

A Senhora Macieira


 

Esta belíssima Macieira foi minha conselheira e inspiração nos últimos dias quentes do ano, há quase 4 semanas, num Lugar absolutamente incrível que me acolheu de uma forma tão amorosa e nutridora, que ainda me emociono quando me recordo de determinados momentos e sensações.

A minha admiração e reverência pelas Árvores, é similar à que tenho pela Vida.
 

Naturalmente porque as Árvores são de facto, símbolo de vida – desse ciclo de impermanência e de constante devir, de vida-morte-vida.

São também símbolo de sabedoria, de ancestralidade, de integração entre imanência e transcendência, de alquimia. Presentes em muitas referências culturais (Yggdrasill – Nórdicos; Árvore da Vida – Cristã; Judaica; Maia; Celta; Indígenas Americanos; Baobá-África, entre outras).
 

Também nos trazem preciosas reflexões sobre o processo de Individuação (tornarmo-nos quem Somos). Sobre a “Grande Obra”, a transmutação da matéria básica em ouro (Psicologia e Alquimia, Jung).

Sobre a Integração de opostos (céu/terra/submundo; masculino/feminino; luz/sombra; consciente/inconsciente).
 

Não gosto tanto da sua “decomposição rígida em partes e funções”, mas há quem faça esta leitura:

- Raízes - Inconsciente e submundo; Tronco - Consciente; Galhos e folhas – Aspirações.
 

Há claramente uma androginia e complementaridade potente: um equilíbrio entre Feminino (chão e copa) e Masculino (tronco).

Em que o chão (Feminino) é claramente decomposição, transformação, útero, fertilidade.

O Tronco (Masculino) represente estrutura, força, virilidade, estabilidade.

Nos Galhos e folhas (Feminino) podemos ver flexibilidade, movimento, ciclicidade e adaptação, criatividade.

E na semente, há visões distintas, eu vejo integralidade. A vida em bruto.
 

Sem dúvida, as Árvores ajudam-nos a compreender o nosso lugar no mundo (raízes, origem, presença, estabilidade, aspirações).

Eu prefiro um olhar sistémico, pois de individualismo e fragmentação está o mundo farto.
 

O Pensamento sistémico é uma mudança que ocorre ao nível da mente e nos ajuda a ver e compreender inter-relações, padrões e dinâmicas entre os sistemas.
 

A Consciência sistémica refere-se a uma mudança no nosso relacionamento com o sistema. A partir daqui levamos em conta pessoas, processos, dinâmicas, fluxos tácitos visíveis e invisíveis de conhecimento, feedback e energia relacional. A partir daqui saímos da observação (mente) para a imersão (uma mudança ao nível do coração e do corpo).
 

A Consciência Ecossistémica é alcançada quando nos abrimos ao leque integral dos sistemas aninhados dos quais fazemos parte – o Humano e o Mais que Humano. E aqui sim, compreendemos a interconectividade de toda a vida e abrimo-nos a um campo de consciência que permeia a realidade: Campo dos Sistemas Vivos. Aqui há uma mudança integral, orgânica, metabólica, psicológica e espiritual.
 

Abrimos a mente, o coração e a vontade de estar ao serviço deste campo mais profundo inerente à Vida. E inevitavelmente, isto reorganiza a nossa Identidade, Lugar e Propósito no Mundo. (Liderança Regenerativa – O ADN das Organizações do Século XXI que dão primazia à Vida, Giles Hutchins & Laura Storm, Editora Bambual).
 

A minha metamorfose, não veio de cursos, ou de livros. Veio da experiência vivida, no corpo. De uma convocação interna no meu coração. Da minha abertura e escuta profunda dos Lugares internos e externos. Da rendição a essa metamorfose, que para mim, é claramente uma passagem do Pessoal para o Impessoal.

E em última análise, da Síntese que agora sinto, se vai instalando em mim através de um Fogo interno, que está muito além do enquadramento teórico, científico e metodológico, que naturalmente tenho vindo a integrar nos últimos 6 anos, após se dissolverem muitas das referências que me sustentavam.
 

Sempre fui uma adepta da aprendizagem experiencial, a forma mais antiga de aprender. Da experiência e das histórias vividas na pele. Não é que eu não goste de mapas, mas os mapas são para nos ajudar a chegar aos Lugares. Quando chegamos aos Lugares, temos de aprender a sentar-nos, e simplesmente oferecer-lhes a nossa escuta profunda, com o corpo todo.
 

Foi o que fiz com este Lugar e esta Macieira. Pousei o Mapa que me conduziu a esta belíssima Reserva Natural e ofereci-lhe a minha Presença, a minha escuta profunda e a minha Reverência.


Susana Cravo

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