O Colapso da Comunicação

Dezembro


 

O Colapso da Comunicação
Sobre as palavras que deixaram de pousar, o corpo que ainda sabe e a linguagem que ainda não recebeu nome



 

O mundo como o conhecíamos está a ficar silencioso de um modo que nos é estranho. Falamos mais do que nunca — mensagens, reuniões, discussões, fluxos intermináveis de texto — mas as palavras já não chegam realmente ao destino. Rebatem, escorregam para o lado, transformam-se em mal-entendidos. Dizemos as mesmas coisas, mas queremos dizer coisas diferentes. E nesse silêncio — onde as palavras permanecem, mas o contacto se perde — algo essencial se esvai.

Um ecossistema sobrevive através da comunicação. A ave sabe disso: basta um chamamento ou o bater de uma asa, e em segundos centenas de corpos viram como se fossem um só. A árvore sabe disso: envia sinais químicos pelas raízes quando o perigo se aproxima, para que as vizinhas preparem as defesas antes de o ataque chegar. A baleia sabe disso: canta através de um oceano para manter a família unida.
 

E os humanos? Não somos diferentes — apenas mais complexos. A nossa linguagem nasceu para nos unir, para nos manter vivos. Primeiro foi um ritmo entre bocas e corpos que liam o perigo antes que o pensamento tivesse tempo de se formar. Um tom que acalmava um bebé, um toque que suavizava o pulso, aromas que indicavam segurança ou ameaça. As primeiras palavras eram provavelmente sons carregados de emoção — avisos, convites, chamados de regresso. Uma forma de estar juntos. De sincronizar batimentos cardíacos. De encontrar o outro na escuridão. De criar o espaço partilhado onde um “nós” podia nascer.
 

Os investigadores ainda discordam sobre quando surgiram as palavras, mas concordam sobretudo quanto ao motivo. Não para transmitir informação, mas para nos manter unidos. Quando os nossos grupos se tornaram demasiado grandes para a proximidade física constante, precisámos de outra coisa. Uma forma de sincronizar a caça, as decisões, os rituais. Uma forma de falar sobre porque estávamos ali, juntos, e o que isso significava. As palavras tornaram-se uma nova forma de toque. Uma maneira de permanecer ligados sem ocupar o mesmo lugar.

Mais tarde, aprendemos a apontar para o que não estava ali — o que era ausência, o que poderia vir. O futuro. A morte. Os espíritos. A lei. A nação. Criámos ficções partilhadas que nos mantinham unidos através do tempo e da distância. Passámos a falar não só do que tinha acontecido, mas do que deveria acontecer. Essa era a magia da linguagem.


 

Quando as Palavras se Tornaram Ferramentas
À medida que a modernidade tomava forma, a função da linguagem mudou. Começámos a dividir. Corpo e alma. Razão e sentimento. Masculino e feminino. Certo e errado. Civilizado e selvagem. Descartes formulou aquilo que se tornaria o alicerce do mundo moderno: Cogito, ergo sum. Penso, logo existo. Mas o que aconteceu ao corpo nessa frase? O que aconteceu ao coração, ao sopro, ao pulso?

O corpo tornou-se algo que se tinha, não algo que se era. E a linguagem acompanhou essa mudança. Transformou-se numa ferramenta — mas para quê? Aprendemos a separar palavras profissionais das privadas, palavras racionais das emocionais, palavras legítimas das que pareciam demasiado carregadas. Nessa divisão, algo se perdeu: a capacidade de falar com o nosso ser inteiro, com tudo o que realmente nos move. Os sentimentos continuam, claro, moldando-nos a cada instante — mas por baixo da superfície, fora do alcance, impossíveis de manter em conjunto com os outros.


 

Penso em como isso aparece no trabalho. Como aprendemos a dizer “desafiante” quando queremos dizer “impossível”, “uma oportunidade entusiasmante” quando queremos dizer “uma crise”, “feedback” quando queremos dizer uma crítica que dói. Como se as palavras verdadeiras fossem perigosas demais. Como se o contacto entre elas pudesse quebrar algo que tentamos manter intacto.

Erguemos campos de conhecimento. Medicina. Direito. Economia. Engenharia. Cada campo criou a sua própria linguagem — termos, símbolos, códigos. Isso deu-nos precisão e sentido de pertença, mas também ergueu muros. Se não falas a língua certa, ficas de fora.
 

Grande parte da linguagem empresarial moderna vem do meio militar e carrega uma visão de mundo baseada em hierarquia, comando, território, inimigos. Esmagamos concorrentes. Lutamos por quota de mercado. Atacamos novos segmentos. Mobilizamos equipas. Alguém vence. Alguém perde. Alguém é sacrificado. Mas o que acontece às relações quando cada conversa carrega um subtom de batalha, conquista e vitória? Quando as palavras não ficam no PowerPoint — infiltram-se na corrente sanguínea, entram nos nossos sonhos, sussurram aos nossos filhos o que conta e o que não conta.


 

O que Não tem Nome
Tenho colecionado palavras de culturas diferentes da minha há muito tempo, sem saber bem porquê. Palavras que descrevem algo profundamente enraizado no lugar onde a língua surgiu.
 

O sueco tem lagom — aquele sentido suave, quase instintivo, de equilíbrio, nem demais nem de menos, apenas o que parece certo no momento. Só existe em relação aos outros, num entendimento partilhado de ritmo e proporção. Uma palavra moldada por uma cultura que há muito confia na moderação como forma de viver em conjunto.
 

O português tem saudade — uma saudade que é suave e profunda ao mesmo tempo, por alguém ou algo ausente, ou talvez nunca totalmente existente fora do coração. Contém luto e amor no mesmo sopro, como um eco que continua a vibrar muito depois de a fonte ter desaparecido.
 

O finlandês tem sisu — a força constante que impulsiona alguém quando o mundo pesa. Força, persistência, uma coragem silenciosa que não se anuncia, mas se revela na forma como alguém continua, inverno após inverno.
 

O alemão tem Fernweh — a dor por um lugar que nunca se viu, o impulso em direção a um horizonte desconhecido. Uma saudade que é ao mesmo tempo aventureira e terna, como se uma parte de nós recordasse uma paisagem que o corpo ainda não tocou.
 

O zulu tem ubuntu — o entendimento de que uma pessoa se torna pessoa através das outras. Que cuidado, responsabilidade e pertença são fios do mesmo tecido. Uma forma de ver o mundo em que a generosidade não é um ato, mas um modo de ser, e onde a reconciliação se entrança no trabalho quotidiano das relações.

 

Todas estas palavras me puxam. Como poesia, tocam algo fundo. E fazem-me perguntar: o que acontece a um sentimento que não tem palavra? Ele não desaparece, mas torna-se invisível. E quando não pode ser expresso, abre-se uma distância entre mim e tudo o que me rodeia.

Perdemos vocabulário para o complexo, o ainda-não-formado, o que não é sim nem não. As coisas que são ao mesmo tempo luto e alívio. Amor e frustração. A nossa linguagem moderna recompensa a clareza, a rapidez, a ausência de ambiguidade.


Mas a vida raramente é binária. É contraditória, irregular, cheia de entremeios. As coisas que mais importam são difíceis de dizer — e ainda mais difíceis de medir.

Há pouco espaço para a dúvida, para o processo, para aquilo que ainda não sabe o que quer tornar-se. E ao perdermos as palavras hesitantes, perdemos outra coisa: a capacidade de nos vermos e de espelhar uns aos outros. Porque como posso entender o que sinto se não tenho palavras para isso? E como, então, poderia algum dia esperar ser compreendido?


 

Exformação
Tendemos a imaginar a linguagem como palavras, frases e sinais alinhados em sequência. Mas quando se escuta — realmente escuta, com a atenção que se dá à música ou a um bando de aves — percebe-se outra coisa. A linguagem é muito maior do que as próprias palavras. A verdadeira linguagem vive no que não é dito. No que é filtrado. Em tudo o que repousa entre as linhas.

Tor Nørretranders chama a isto exformação — o pano de fundo oculto de experiência, associações, memórias, cultura e saber corporal que torna o significado possível desde o início.
 

Quando falamos ou escrevemos, fazemos isso com todo o nosso território interior — sentimentos, pensamentos, memórias — e depois retiramos quase tudo. O que sobra, aquela gota destilada, é o que vestimos de palavras. Mas as palavras são apenas a superfície. A profundidade está no que não dissemos. “Cavalo” não é apenas um substantivo. É infância, medo, um filme que viste, o cheiro de pelo quente, a memória de um encontro, algo indizível que se desdobra no ouvinte.

É assim que a arte poderosa funciona. Uma única palavra bem colocada, um tom, um traço de tinta pode carregar mundos inteiros. Transmitem ideias, sentimentos, estados de ser que o criador um dia sustentou — e despertam-nos noutro alguém.
 

A linguagem funciona quando as associações de duas pessoas se sobrepõem o suficiente. Quando os seus mundos se afastam demasiado, ela vacila. Ouvimos as mesmas palavras, mas elas acendem imagens diferentes. A conversa desfaz-se. Pensamos que comunicamos através das palavras, mas na verdade comunicamos os nossos mundos inteiros.

Quando uma sociedade perde as suas histórias partilhadas, perde também a sua exformação partilhada. A política empanca. As famílias fragmentam-se. A conversa pública torna-se agressiva ou oca. As palavras já não pousam no mesmo chão.


 

O que o Corpo Sabe
Mas a linguagem não desapareceu. O corpo ainda fala. Sabe coisas muito antes da mente conseguir acompanhar. O estômago que se aperta quando alguém se aproxima com uma oferta que não quer. O pescoço que se tenciona quando o seu chefe diz “precisamos conversar”, mesmo que as palavras pareçam neutras. A frieza nas mãos no meio de uma apresentação que está a correr bem. O corpo lê ambientes, lê pessoas, lê perigo e segurança mais rápido do que a consciência consegue. Cheiros. Mudanças no ar. Um calor ou um frio que sente antes de alguém dizer uma palavra. Como a presença de alguém pode fazê-lo abrir-se — ou fechar-se. Como uma reunião pode parecer pesada mesmo quando todos dizem as coisas certas. Como algo pode parecer errado sem qualquer explicação clara.
 

Às vezes chamamos isso de intuição, mas é, na verdade, a soma da experiência herdada e vivida a dizer-nos o que importa agora.

O que é que o corpo diz que as palavras não conseguem? A história não dita que as famílias carregam. Os fundamentos sobre os quais uma organização se apoia — regras antigas e não reconhecidas, linhas de poder invisíveis, acordos não verbalizados.

Então, como começamos a falar de novo — a falar de verdade? Penso nas conversas que me transformaram. Nunca foram as mais polidas ou preparadas. Não eram perfeitas. Simplesmente aconteceram, e foram verdadeiras. Alguém ousou dizer algo que lhe custou. Alguém criou espaço para o que era difícil. Alguém permaneceu quando ficou desconfortável. Talvez seja aí que começamos. Deixando de lado a performance. Falando não para parecer esperto, ou para ter razão, ou para provar algo. Ousando dizer: Não sei. Não entendo. Não me sinto em casa aqui mais.
 

Palavras simples, mas difíceis de dizer. Porque uma linguagem viva exige aquilo que a nossa linguagem moderna nos treinou a ignorar: vulnerabilidade, presença, tempo. Não se pode agilizar a conexão. Ela pede-nos que fiquemos. Que escutemos. Que escutemos intensamente, para também ouvirmos a nuance nos outros.


 

As Palavras que Escolhemos Agora
Palavras isoladas constroem histórias maiores. Há não muito tempo, partilhávamos um sentido de futuro. Progresso significava algo que todos reconhecíamos. A tecnologia iria libertar-nos. A prosperidade iria crescer. Cada geração viveria melhor do que a anterior. Eram essas as promessas que mantinham as sociedades unidas.

Mas o clima está a colapsar. Os ecossistemas estão a morrer. A desigualdade está a aumentar. O futuro deixou de nos parecer partilhado, e temos poucas histórias novas sobre aquilo para que nos estamos a mover. Sabemos muito mais sobre o que não devemos fazer do que sobre o que devemos.
 

Então, quais palavras escolhemos agora? Talvez não precisemos de regressar ao que perdemos — talvez a própria linguagem esteja a transformar-se em algo que ainda não sabe o que quer ser. Porque o mundo de hoje exige isso. Sentimentos entre pessoas que ainda não têm nome, mas que ainda assim nos tornam mais corajosos.


Talvez escutemos a linguagem que se está a formar. Para que possamos redescobrir, criar ou reconectar-nos com algo novo. Palavras que nos transformem em algo além do que somos agora. Não vencedores, mas participantes. Não palavras que criem distância, mas palavras que criem proximidade. Não palavras que fechem caminhos porque temos pressa, mas palavras que abram.

Precisamos de palavras para os espaços do entremeio. Para o processo. Para o que ainda não está acabado. Para as coisas complexas que ainda conseguimos sentir. Para aquilo que exige tempo. Para o que simplesmente é.

 

Precisamos de uma linguagem para o regenerativo — para o que só se torna verdadeiro na relação. Uma linguagem que cria presença.

Precisamos de uma linguagem para o vivo. Sim, precisamos das grandes narrativas e manifestos, mas não é aí que tudo começa. Começa em conversas simples. Nos momentos em que largamos quem pensamos que precisamos de ser e escolhemos estar presentes. Onde deixamos de falar sobre o mundo e começamos a falar com ele — onde libertamos a necessidade de controlar e deixamos que a linguagem se torne aquilo para o que sempre foi destinada: uma forma de estarmos juntos. Tecendo o mundo de novo. Palavra por palavra.


Fonte: Artigo de Anna Branten em https://thestartingpoints.substack.com/p/the-collapse-of-communication?r=fih67&utm_campaign=post&utm_medium=web&triedRedirect=true 

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