COP 30: A Humanidade não é o Problema
Novembro
“A humanidade errou o alvo. A humanidade falhou.”
Enquanto a COP30 começa, esta foi a interpretação dos mídia sobre o anúncio do Secretário-Geral da ONU de que 1,5 grau de aquecimento global já está garantido.
Devemos revirar os olhos diante de tais declarações. Mais uma vez, a humanidade leva a culpa pela impotência de cúpulas lideradas por interesses corporativos.
A verdade é que “humanidade” inclui bilhões de pessoas ligadas à terra que ainda não foram absorvidas por cidades de alto consumo e estilos de vida intensivos em recursos. A humanidade inclui centenas de milhares de pessoas que – como talvez você – vêm resistindo, regenerando e localizando, a partir do próprio senso comum, cuidado e sabedoria. Por que a humanidade deveria assumir a culpa por estruturas políticas cegas e verticalizadas que, acima de tudo, tratam o ecocídio e o colapso climático como um “mercado de carbono” – uma oportunidade para aumentar lucros corporativos?
Desde que Al Gore assumiu destaque no ativismo ambiental, temos tido o dedo apontado para o nosso comportamento individual. Enquanto isso, corporações globais transportavam mercadorias desnecessariamente pelo mundo.
Tratados de "livre comércio" deram-lhes o direito de conduzir sociedades inteiras pelo caminho do consumismo; o direito de contaminar crianças e jovens com a mensagem: “se você quer ser amado e respeitado, precisa de ter o smartphone mais recente, os melhores ténis”.
A humanidade nunca foi o problema. O domínio corporativo foi.
A COP é controlada por corporações globais. Embora o financiamento de uma COP seja sustentado pelo tripé: País sede, Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e patrocinadores privados, o financiamento do setor privado, vem de empresas do agronegócio, de mineradoras e das próprias renováveis. Por isso, apesar das boas intenções e esforço conjunto, de muitos passos dados, há muita pressão e influência, muita corrupção ao longo de toda a cadeia de financiamento e dificuldade no rigor das auditorias.
As questões centrais: descentralizar economias, limitar o consumismo, impedir a obsolescência programada ou regular as indústrias mais poluentes, continuam difíceis de concretizar.
Quando existem patrocinadores de um fundo climático com portfólios de investimento em energias renováveis, existirá inevitavelmente cooptação de agendas climáticas, que acontece quando o foco se desloca da justiça climática para a rentabilidade de mercados. Espera-se que empresas com investimento em energias renováveis, pressionem o evento que financiam para que os compromissos globais sejam cada vez maiores em… investimento em energias renováveis.
Teoricamente as COPS são reuniões de líderes internacionais para discutir e encaminhar assuntos importantes relativos às mudanças do clima e proteção ambiental, que contam com maior ou menor participação popular, mas sempre reduzida, seletiva e vigiada. Nos bastidores, no entanto, a COP é também uma feira internacional de negócios verdes, com pavilhões de representantes comerciais e reuniões entre grandes empresas e representantes dos governos.
E o nó da questão reside no fato de que megaempreendimentos de energias renováveis são a resposta do capitalismo às mudanças climáticas. A continuidade do modo de produção capitalista, reside na capacidade que o mercado tem de responder às diferentes crises econômicas. Nesse contexto, usinas de energia renovável são apresentadas pelos governos e empresas como uma solução para o problema macroeconômico das mudanças climáticas, pois garantem a acumulação do capital, especialmente em tempos de crise, um negócio que mobiliza bilhões de dólares, vindo sobretudo de empresas estrangeiras que funcionam no país através de filiais e holdings. Portanto, não se centram nem buscam promover verdadeiramente justiça climática e sim o próprio lucro, mesmo que para isso causem desterritorialização de povos tradicionais e violação de direitos de comunidades locais, especialmente no Sul Global.
“O impensável tornou-se realidade”
Dra Camila Moreno
As COPs têm garantido consistentemente que bilhões de dólares sejam investidos em soluções falsas, mas lucrativas. Alegadamente para monitorar o carbono, tecnologias como Inteligência Artificial e Internet das Coisas estão sendo implementadas, com enorme exigência de minerais raros e sérias implicações para a liberdade e a vigilância. Os mercados de carbono estão transformando a terra, a água e a biodiversidade em mercadorias financeiras para serem negociadas.
Assista aqui a um vídeo com Camila Moreno da Local Futures. Ela explica como “o impensável se tornou realidade” – o tecido da vida agora pode ser possuído, comprado e negociado.
“Esta não é uma reunião sobre clima. É aqui que você pode ver, com mais clareza, para onde o futuro do capitalismo está indo.”
Você fala “carbonês”?
Sob a vaga definição de “net-zero”, enormes usinas de captura de carbono foram construídas para, supostamente, combinar o carbono do ar com lixo plástico em temperaturas altíssimas e injetá-lo na rocha subterrânea. E, talvez ainda pior, a tão divulgada “transição verde” cobriu terras e costas que deveriam ser produtivas e biodiversas com painéis solares, turbinas eólicas e monoculturas de biomassa.
As coisas podem estar a ficar complicadas já – incêndios, inundações, tempestades – mas só vão piorar se não tomarmos ações reais.
E, aconteça o que acontecer, qual é a ação que faz mais sentido? Alimentação local. Regeneração prática dos ecossistemas. Fortalecimento económico e redes locais.
Portanto, onde as COPs e as corporações globais falharam, a humanidade é a solução. Vamos tornar visível a revolução silenciosa que está ocorrendo de baixo para cima, enquanto comunidades expressam o seu cuidado pelos outros e pelo mundo vivo.
Renováveis – salvação ou maldição?
Precisamos encarar de frente o apelo por energia renovável. Não é um tema fácil de abordar. Há décadas, a Local Futures faz parte da chamada por instalações de energia renovável em pequena escala e descentralizadas, capazes de atender às reais necessidades humanas. Nos anos 70, o movimento ambiental tinha clareza sobre isto.
Mas, nas últimos três décadas, surgiu a “transição verde” global. Na retórica, trata-se de conectar a economia global a uma fonte de energia diferente e mais verde. Na realidade, trata-se de aumentar as já absurdas e desperdiçadoras exigências energéticas da economia global, inserindo ainda mais mega-tecnologias industriais no processo.
Como ambientalistas podem apoiar a cobertura de terras com painéis solares feitos de sílica extraída consumindo ilhas inteiras da Indonésia? Como podem apoiar a conversão de cada vez mais montanhas e vales em vastas paisagens de torres construídas com concreto, plástico, aço e madeira de balsa da Amazônia – turbinas com vida útil inferior a 20 anos destinadas a acumular-se em aterros sanitários?
Como podem apoiar o rastreamento do fundo do mar em busca de manganês, e a mineração de cobre, níquel, terras raras, lítio e cobalto – o que segundo a Agência Internacional de Energia, exigirá aumentos de extração de cerca de 400% até 2040 para dar resposta à exigência de infraestrutura de IA, digital e renovável?
Precisamos de algumas energias renováveis. Mas a “transição” precisa ser radicalmente reformulada. Não devemos começar com a pergunta “como fazemos a transição da economia global atual para energia renovável” – essa proposição é uma sentença de morte. Devemos antes começar por perguntar: “quais são as nossas reais necessidades energéticas humanas e como lhes dar resposta da forma mais sábia possível?”
O problema climático só pode ser enfrentado de forma eficaz, se os governos deixarem de subsidiar a globalização e passarem a promover uma agenda de localização.
A Professora Helena Freitas Phd, Professora e Investigadora da Universidade de Coimbra que recebe hoje - 24 Novembrro - o Grande Prémio Ciência Viva 2025 e que esteve na COP30, tem ainda num artigo do Diário de Notícias publicado hoje, a seguinte afirmação: "O resutado final da COP é claramente insuficiente, não responde à urgência. (...) E face à informação científica que existe, não há dúvida que a COP30 falha em vários sentidos. Não há decisões transformadoras e, de facto, há uma incapacidade real de enfrentar aquilo que são os principais problemas da crise climática e ecológica."
Fonte: Local Futures, Jornal Eco-Ambiente, Conservation International, Diário de Notícias, Novembro